Metafísica – Uma Introdução

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  Metafísica – Uma Introdução
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   1 Metafísica – Uma Introdução Brian Carr (U. Exeter) Resumão de C ARR  ,   B.   (1987),  Metaphysics: An Introduction . Londres: Macmillan.   Confeccionado por Osvaldo Pessoa Jr. para a disciplina FLF0456, Teoria do Conhecimento e Filosofia da Ciência III, USP, 2006. O início aproximado de cada página do srcinal está indicado entre colchetes: [8] . Comentários adicionais do resumidor, também entre colchetes, foram geralmente obtidos de K  IM ,   J.   &   S OSA ,   E. (orgs.) (1995),  A Companion to Metaphysics . Oxford, Blackwell. C AP .   1:   D ESCRIÇÃO C ATEGORIAL   I.   I NTRODUÇÃO   [2] A metafísica, em sua forma mínima, é a atividade de “descrição categorial”. Ao falarmos da realidade, fazemos inúmeras divisões, algumas das quais são mais gerais, como a distinção entre coisas  e suas  propriedades , entre eventos  e seus tempos  e lugares , etc. (Cap. 1) I.1. Categorias Aristotélicas Em sua obra Categorias , Aristóteles fez uma lista de dez categorias ou “predicáveis”. Ao dizer “Aristóteles está no Liceu”, o predicado é “está no Liceu”, ou seja, estamos predicando “estar no Liceu” de alguma substância, que no caso é Aristóteles. [3]  Note, porém, que não se trata de uma análise sintática de uma sentença, de uma discussão sobre linguagem, mas sim de uma discussão sobre a realidade. Cada categoria designa um tipo de coisa , não um tipo de termo lingüístico ou de idéia.  No entanto, para investigar as categorias, Aristóteles precisava investigar a estrutura da linguagem e do pensamento. [4] O estudo dos entes mais gerais da realidade passa por um estudo da linguagem e pensamento, que fornecem as estruturas conceituais mais gerais com as quais categorizamos o mundo. [A metafísica se beneficia não só do estudo da linguagem e pensamento, mas também de sistemas lógicos, dos resultados da ciência (física, cosmologia, biologia, etc.), e dos resultados da ciência cognitiva a respeito de como linguagem e pensamento funcionam.] (Cap. 1) I.2. Categorias Kantianas [5] As categorias em Immanuel Kant provêm do pensamento, não das coisas-em-si, ao contrário do que ocorre com Aristóteles. A fonte das “formas do entendimento” em Kant foi a lógica tradicional. A “quantidade” de um juízo pode ser universal, particular ou singular; a “qualidade” pode ser afirmação, negação ou infinitude; a “relação” pode ser categórica, hipotética ou disjuntiva; e a “modalidade” pode ser problemática, assertiva ou apodítica. Disso, provêm as doze categorias kantianas, que são, respectivamente: unidade,   2 pluralidade ou totalidade; realidade, negação ou limitação; substância & acidente, causa & efeito, ou interação recíproca; possibilidade, existência ou necessidade. [6] Aristóteles pode ser considerado um realista categorial  , ao passo que Kant seria um conceitualista categorial  . [7] Há, porém, uma forma de conceitualismo que não nega (como faria Kant) que tenhamos acesso à realidade, mas também não o afirma (como faria um realista). É esta a linha de descrição categorial mínima  defendida pelo autor. (Cap. 1) I.3. Relativismo Metafísico de Collingwood Robin Collingwood, em seu  Ensaio de Metafísica  (1940), defende que a metafísica é o estudo dos pressupostos fundamentais do pensamento científico de uma época, como  por exemplo o princípio de causalidade da física determinística da mecânica clássica. Como a ciência muda com o passar do tempo, assim também a metafísica deve ser sempre revista. Carr chama tal concepção de relativismo categorial  , em oposição ao “absolutismo” de Aristóteles e Kant. [8] É verdade que, em algumas passagens, Kant considera a  possibilidade de haver criaturas com estruturas perceptivas diferentes, ou divisões categoriais diferentes – uma tese do realismo categorial – mas depois ele argumenta a favor do absolutismo categorial. [9] A posição de Carr é que a descrição categorial mínima não precisa adotar o relativismo, e nem o absolutismo. (Cap. 1) I.4. Strawson sobre Descrição versus Prescrição Carr reconhece a influência que recebeu da obra de Peter Strawson,  Individuals  (1959), [10] mas discorda da distinção do oxfordiano entre “metafísica descritiva” e “revisionista”. A primeira se contenta em descrever a estrutura que de fato tem nosso  pensamento, ao se refeir ao mundo; a revisionista busca alcançar uma estrutura melhor. Segundo Strawson, Aristóteles e Kant seriam descritivistas, ao passo que Descartes, Leibniz e Berkeley seriam revisionistas. [11] Carr também critica a afirmação de Strawson de que podemos nos concentrar na estrutura do pensamento, de maneira independente do estudo da linguagem. Discorda também que se possa argumentar que a metafísica descritiva captura as características imutáveis  do pensamento (um absolutismo metafísico). [12] (Cap. 1) I.5. Categorias como Tipos Fundamentais [13] Devemos aceitar que existam categorias que sejam as fundamentais? Ou haveria diferentes graus de fundamentalidade? Kant, por exemplo, concebeu suas doze categorias como sendo igualmente fundamentais, independentes, e exaustivas. [14] Mas  pode-se argumentar que a categoria de interação recíproca pode ser derivada das categorias de substância e causalidade. Assim, Carr considera melhor estudar quais são as categoriais “mais” ( more ) fundamentais, sem se preocupar sobre quais seriam “as mais” ( most  ) fundamentais de todas.   3  II.   O   L UGAR DA M ETAFÍSICA NA F ILOSOFIA   A metafísica não pode ser investigada em isolamento com relação às outras áreas da filosofia, como a epistemologia ou a filosofia da mente. Ilustraremos isso examinando a tentativa de Descartes de provar a natureza dual de uma pessoa, e o problema do estatuto ontológico dos fatos. (Cap. 1) II.1. Descartes sobre Mente e Corpo [15] Na Segunda Meditação , René Descartes (1641) apresenta seu célebre argumento envolvendo o cogito , que pode ser resumido da seguinte maneira: 1) Estou certo de que eu existo. 2) Não tenho certeza de que tenho um corpo. Portanto 3) Minha existência não envolve um corpo. Portanto 4) Eu existo enquanto uma coisa pensante, um res cogitans . [16] Antoine Arnauld (1641) criticou a passagem de 1 e 2 para 3, por se basear na ignorância a respeito de um fato. Esse problema talvez possa ser evitado, mas o interessante é perceber como uma tese relativa à descrição categorial (ou seja, à natureza das coisas) está intimamente ligada a uma tese epistemológica (sobre o que podemos ter certeza de conhecer).  Na Sexta Meditação , [17] Descartes propôs um argumento em favor do dualismo, ou seja, a tese metafísica de que existe uma diferença real entre mente e corpo. Novamente, ele se baseia em premissas epistemológicas. (Cap. 1) II.2. Estatuto Ontológico dos Fatos [18] A descrição categorial examina os tipos fundamentais de coisas que têm lugar em nossos esquemas conceituais. Além dos particulares, das propriedades, dos eventos, etc., é interessante estudar que tipo de coisa é um  fato , tipo de ser que não aparece na lista de categorias de Aristóteles e Kant. Exemplos de substâncias particulares são Napoleão e o Big Ben. Um exemplo de um fato é que Napoleão perdeu a batalha de Waterloo. Fatos envolvem particulares, mas nem sempre; por exemplo, o fato de que ser azul é ser colorido. Outra diferença entre particulares e fatos é que os primeiros podem sempre ser associados a uma data e local, mas um fato não. O  fato  de que Napoleão perdeu em Waterloo em 1815, segundo Carr, não é datado em 1815, pois trata-se de um fato hoje. Sem falar em exemplos mais claros, como o fato de que 2 é um número par, [19] ou uma lei física. Um acontecimento difere de um fato justamente por poder ser associado a um tempo e local: um evento  é um acontecimento que ocorre num instante, um  processo  é um que ocorre em um tempo mais longo. [20] Um fato tampouco é uma  propriedade , apesar desta também não ser associada a um tempo e local. Propriedades são possuídas por  particulares, fatos não. Uma sugestão é que fatos possam ser igualados a “proposições verdadeiras”. Mas isso não dá certo, pois um fato é o que torna  uma proposição verdadeira. Uma abordagem categorial aos fatos foi apresentada por David Hamlyn (1962). [21] Em suma, fatos podem   4ser considerados entes do mundo, a não ser que exijamos que a realidade seja co-extensiva com entes espaço-temporais. Esta conclusão mina, em certa medida, teses como a de George E. Moore (1903), segundo a qual valores não podem ser identificados com fatos, já que valores não têm localização espaço-temporal. Ora, fatos também não têm localização, de forma que este argumento da “falácia naturalista” não procede. Segundo Carr, pode haver “fatos morais”, assim como “fatos estéticos”. Vemos assim a relevância da metafísica também para a ética e para a estética. [22] III.   A FIRMAÇÕES M ETAFÍSICAS :   C RITÉRIOS E E STATUTO   (Cap. 1) III.1. Há Vários Critérios Ao examinarmos os fatos, vimos certos critérios para se julgarem afirmações a respeito de categorias. O primeiro critério a ser apontado é que afirmações categoriais são avaliadas em termos de nossa  fala  sobre a realidade. [23] Mas algo mais do que uma mera coleção de observações lingüísticas é necessário: é preciso também abstrair e idealizar. Por fim, é interessante prestar atenção na interface da metafísica com outras áreas da filosofia. Por exemplo, a filosofia da ciência avançou muito ao esclarecer a descrição categorial envolvendo a relação entre fatos e teoria. Carr também promete mostrar como a descrição categorial pode mostrar os erros da nova “metafísica essencialista” de Saul Kripke e David Lewis. (Cap. 1) III.2. Relativismo, Objetividade e Cognitivismo [24] As descrições categoriais tratam das características mais amplas e funda-mentais de nossa atividade de pensamento e linguagem , e assim não estão sujeitas aos  perigos de especulações a respeito da realidade em si. Mas mesmo para quem busca afirmações metafísicas substantivas, a descrição categorial é útil como passo preliminar. Assim, a descrição categorial mostra que particulares e propriedades são tipos de coisa diferentes. Outra questão é se, na realidade, existem particulares e propriedades. A descrição categorial não precisa entra nesta questão! Mesmo assim, Carr anuncia que em seu último capítulo irá abandonar a postura neutra da descrição categorial, e irá tecer conclusões a respeito da realidade. Defenderá que a suposição do absolutismo metafísico não é necessária para um realismo metafísico. C AP .   2:   S UBSTÂNCIA   I.   S UBSTÂNCIAS ENQUANTO C OISAS I NDIVIDUAIS OU P ARTICULARES   [25] Com relação à terminologia, o autor utiliza os termos “ser” [being], “ente” [entity], “existente” [existent] e “coisa” [thing] de modo intercambiável, e aplicáveis latu  sensu aos membros de todas as categorias. No entanto, é usual associarmos essas palavras a uma categoria em especial, a dos particulares ou indivíduos. Assim, em um sentido estrito,   5“coisa” designa um indivíduo, que é diferente de suas propriedades , etc. O termo usado tradicionalmente em metafísica para esta categoria (associada a indivíduos) é “substância”. [26] O termo  substância se refere a coisas que têm uma existência independente,  para as quais acontecem coisas, e para as quais se podem atribuir propriedades e relações. Por exemplo, Platão é uma substância, mas a altura de Platão não, pois esta não tem realidade independente de Platão. Segundo Aristóteles, substância é a resposta à questão “o que é?” (resposta: “um homem”), diferindo, é claro, de questões como “o que tem?” (“certa altura”) ou “onde está?” (“na Academia”). Nas Categorias , Aristóteles também distingue entre uma “substância primeira” e uma “segunda”. A primeira se refere a um indivíduo específico, por exemplo: “Um homem atravessou o salão”; a segunda se refere a uma classe ou gênero [ kind  ]: “Um homem é um bípede implume”. [27] No presente capítulo, Carr estará preocupado com a descrição categorial da substância primeira (indivíduos), ao passo que no cap. 3 se voltará à substância segunda (essências). [28] II.   O  QUE S UBSTÂNCIAS N ÃO S ÃO   (Cap. 2) II.1. O Substrato de Locke Para John Locke (1690), o substrato [  substratum ] seria a entidade que subjaz às  propriedades de uma coisa [seria a materia prima  de Aristóteles, que “carregaria” as  propriedades, mas que em si não as teria]. Há uma discussão a respeito de como Locke encarava a tese metafísica do substrato, que não seria consistente com uma postura empirista. [29] Parece que ele considerava o substrato apenas como uma idéia que formamos, sem que possamos dizer que corresponda a algo real. Um  particular  , de acordo com essa concepção, seria uma coleção de propriedades que seriam embasadas em um substrato. O substrato, em si, não teria propriedades [seria um particular despido, bare particular  ]. Assim, não seria possível apontar qualquer diferença entre o substrato de uma árvore e o de uma pedra. Para que serve então este conceito de “substrato”? Não ajuda a individuar um particular, pois não podemos distingui-lo de outro, nem reconhecer que um particular é o mesmo, nem classificar particulares em diferentes gêneros. [30] Uma saída seria dizer que aquilo que carrega as propriedades de uma mesa não é um substrato, mas sim a própria mesa. Locke não teria se contentado com esta solução  porque isso identificaria  a mesa com suas propriedades [essa é a teoria do feixe, bundle theory , de Berkeley e Hume, que se opõe à noção de substrato]. Locke teria achado que uma propriedade teria que ser possuída por algo que não fosse uma propriedade. Mas Carr não vê porque um grupo de propriedades não poderia ter características peculiares, não compartilhadas por cada propriedade individual, como a localização espaço-temporal. [31] Apesar do autor indicar a viabilidade desta “abordagem redutiva aos particulares”, como alternativa para a “teoria do substrato”, ele acaba não a levando muito a sério. Sua posição é que “os particulares são o que são”, não um substrato e nem uma classe de propriedades.
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